16 agosto 2015

|CONTO| "What Would I Give"

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Oie gente! Se vocês não sabem ainda, eu amo escrever. Já escrevi algumas fanfics de Vampire Academy, pequenas histórias, e milhares de inícios que nunca foram finalizados. Tem também o Contos de Mabelle, onde vira e mexe eu posto alguns capítulos (é desgastante escrever Mabelle pela carga emocional, por isso demora para ser atualizado). Como minha mente está sempre e a todo momento trabalhando com algo, decidi que seria legal se eu postasse aqui algumas coisas. Nada grande, apenas contos que às vezes passam por minha cabeça. Não sei a frequência com que irei postar, já que, como eu disse, eu tenho várias ideias e elas vivem se atropelando... mas de vez enquanto vocês verão alguma coisa minha aqui também.

A postagem inaugural é uma ideia que tive um tempão atrás e que finalmente terminei. Inspirei-me no conto e na adaptação de A Pequena Sereia. Sempre pensei que a transformação de Ariel teria sido mais dolorosa que bonita, então escrevi a minha versão dos fatos. O motivo para que eu não tenha posto nomes, mas deixado algumas referências da inspiração, é justamente para não marcar o conto e deixá-lo mais aberto.



What Would I Give

O ar frio da manhã recepcionou-a ao emergir da água. O céu estava azul profundo, mas as estrelas começavam a sumir, indicando que logo seria dia. Firme em sua mão, o pequeno frasco brilhava enquanto a pequena sereia nadava em direção à praia; e continuou seguro entre seus dedos conforme se arrastava pela areia.

Era ali que sua nova vida começaria, pensou olhando em volta. Rochas a escondiam de possíveis curiosos, mas ela sabia para onde se dirigir quando tudo tivesse terminado: a leste dali havia uma comunidade, então voltaria a ver o belo rapaz de olhos azuis que salvara do naufrágio semanas atrás. Torcia para que os humanos não migrassem como as aves e algumas espécies que conhecia.

Olhou para o frasco em sua mão. Não era grande, mas pulsava com o poder que possuía. Era transparente, mas quando a luz da lua o tocava parecia possuir todas as cores conhecidas e desconhecidas. Destampou-o, e não havia cheiro também. Segurava sua nova vida com cuidado nas mãos. Ele era a ferramenta que precisava para ter tudo aquilo que sempre sonhara, que sempre havia desejado com tanta intensidade. Respirou fundo, como se tomasse coragem, mas não hesitou nem um segundo apenas para levar o conteúdo à boca e engoli-lo.

Tinha um gosto peculiar. Nada que já experimentara antes. Era doce e salgado em sua língua, mas também amargo no fundo da garganta. Tomou toda a poção que barganhara com a bruxa do mar em troca de sua voz – sua tão bela voz que o pai tanto amava. Para manter as pernas, a jovenzinha teria que conquistar o amor daquele que habitara seu coração desde que o viu pela primeira vez dançando no convés com os marujos. Tinha certeza de que o jovem a reconheceria e que ambos seriam muito felizes e apaixonados. Talvez conseguisse falar com seu pai e ele iria ver como sua vida estava boa e a perdoaria por tê-lo deixado.

Jogou o frasco de volta no mar, sabendo que encontraria o caminho de volta para sua dona, mas ainda nada da promessa da bruxa. Será que havia feito algo errado? Deveria ter tomado a poção ainda no mar? Ou será que agitara demais e assim a faz perder o efeito? Se não funcionasse, o que mais teria para dar em troca de mais uma poção, mais a certeza? Talvez a velha pedisse parte de seu cabelo. Segurou-o com carinho nas mãos, sentindo-se receosa, mas sabendo que faria o que fosse necessário para ter o que queria e encontrar a felicidade.

Foi então que tudo começou.

Uma dor lancinante a atingiu. Era como se sua cauda fosse apunhalada por diversos espinhos, uma dor aguda e intensa que lhe roubou o fôlego. A sereia se contorceu na areia, em agonia, lágrimas brotaram de seus olhos e sangue verteu de seus lábios, tamanha força que ela os mordia. Resfolegante, dobrou-se, apertando a barriga e gritando – embora nenhum som escapasse de seus lábios.

Foi com assombro que percebeu que as escamas caiam pela areia, manchadas de sangue. Pareciam repelidas por seu corpo, pendendo como pétalas de rosa secas antes de ir ao chão. Observou as escamas, uma a uma, perderem seu brilho e deixarem seu corpo. Cada uma delas era um passo para longe de sua família, de seu lar e de todo o mundo o que conhecia. Não pôde evitar de sentir medo. Ansiava pelo mundo dos humanos há mais tempo que poderia contar, mas a dor era tanta que se perguntou se valeria a pena. Se perguntou se a bruxa do mar não a estava matando aos poucos por ser uma sereiazinha tola, perdida em sonhos irreais. De repente desejou com toda a sua alma que sua mãe estivesse ali com ela, acariciando seus cabelos e cantando palavras de consolo.

A dor então acalmou. Abriu os olhos embaçados pelas lágrimas e com dificuldade ergueu a cabeça para olhar seu corpo. O que viu a desconcertou. Estava deformada, sua cauda pulsava e latejava de dor, e onde antes era belíssimo azul-esverdeado, que brilhava à luz, agora era áspero e branco. Sentia-se doente. Sentia que a deformação era uma punição por seu egoísmo e que refletia sua alma como era: feia, desgastada e repugnante. A bruxa do mar, teve certeza, estava lhe castigando e em breve seu pai aparecia em todo o seu esplendor dourado e verde para leva-la para casa.

Mal teve tempo de concluir seus pensamentos temerosos quando mais uma onda de dor a atingiu. Se antes a pequena sereia havia perdido o fôlego e a força de tanta dor, agora tudo o que ela desejava era morrer.

Sua cauda ardeu em brasa, e tremeu como todo o seu corpo. As mãos se fecharam tão fortemente que as unhas rasgaram sua pele e seus dedos pareciam que iriam se quebrar. Arqueou as costas e se contorceu, trancou a mandíbula com tanta força, se estivesse em condições de pensar, consideraria a possibilidade de ter quebrado alguns dentes. Suas nadadeiras se retorceram e a jovem não sabia mais como expressar tanta dor. Chorava, sangrava, seus pulmões e abdome ardiam, cansados com o esforço. Parecia estar sendo cortada ao meio.

“Pelos deuses” pensou ao entender o que estava acontecendo. Ela estava sendo cortada ao meio. Sua cauda dividia-se em duas partes, da maneira mais lenta e dolorosa possível, transformando-se em pernas. Engasgou-se com a tortura com a qual sofria e a dor por fim tirou-lhe a noção do tempo e espaço.

Não sabia ao certo quanto tempo havia se passado do início do processo, mas ao abrir os olhos o sol já despontava ao horizonte, colorindo o céu em tons pasteis de rosa e amarelo. Seu coração ainda retumbava em seu peito, mas já não tinha forças ou coragem para mais nada. A dor estonteante havia passado e deixado apenas um rastro em seu corpo. Ela poderia lidar com isso.

Estava viva. Foi seu primeiro pensamento.

Isso era bom ou ruim? Não saberia dizer.

Fechou os olhos mais uma vez, concentrando-se no oceano e em sua melodia. O vai e vem das ondas a acalmava. Controlou sua respiração e seu coração enfim encontrou seu ritmo em seu peito.

Exausta e dolorida, estirada na areia da praia, a jovem se moveu devagar. Com esforço apoiou o tronco nos braços e observou a estranheza: onde antes habitara uma cauda, agora descansava um par de pernas rosadas. Um pequeno sorriso de satisfação se fez em seus lábios e tudo o que passara nas últimas horas parecia longe. Sentou-se com rapidez e viu o mundo girar. Estava fraca e dolorida, não tinha como ignorar. Mas tinha pernas. Pernas como as de humanos! Pernas e pés!

Ignorando os músculos cansados, tocou a barriga e deslizou a mão por sua pele até chegar às coxas. Repetiu o movimento uma, duas, três vezes. Pele. Seu corpo era revestido por pele. Não mais escamas e nadadeiras. Pele rosada e quente e macia. Pele. Parecia que suas novas ferramentas vibravam em êxito para serem usadas.

Experimentou mexer os dedos dos pés. No começo, sem saber o que fazer, eles não se moveram. Mas na segunda tentativa sentiu-os. Com paciência testou-os novamente até que compreendesse como fazia para que se movessem. Então moveu os pés. De um lado para o outro. Eles doíam, mas eram uma dor boa. Era uma dor que dizia “ei, estou aqui!”.

Devagar, puxou as pernas para mais perto dela. E então a esticou de novo. Repetiu o movimento com a perna direita e depois só com a esquerda, testando seu novo corpo. Tocou os dedos dos pés e suas unhas, as canelas e as coxas cobertas por uma leve e clara penugem. Só então reparou que também possuía cabelos entre as pernas. Cachos ruivos e curtos que a divertiram. Não sabia que os humanos também tinham cabelos entre as pernas, que engraçado aquilo era. Humanos eram estranhos.

Com animação, ignorando as reclamações de seu corpo, apoiou-se em um rocha e meio escalando, meio se arrastando, ficou em pé. Suas pernas tremeram, mas ela se segurou firme na pedra para não cair. Como os humanos faziam mesmo? Uma na frente da outra. Já os viu andar, de longe, não deveria ser difícil. Se apenas não se sentisse tão cansada e se suas novas pernas parassem de tremer!

Soltou-se da pedra, e com os braços abertos tentou se equilibrar, mas caiu com tudo na areia. Respirou fundo, determinada. Não chegara até ali para desistir. Ela só precisava de prática! Apoiou-se na pedra novamente e deu um passo para frente como vira tantas vezes os humanos fazerem. Suas pernas cederam mais uma vez. E cederam na vez seguinte e também na próxima.

Aquilo era frustrante! Tinha certeza de que saberia usa-las quando as tivesse! Não deveria ser difícil! Os humanos andavam, corriam, pulavam, dançavam, e ela não conseguia sequer ficar em pé? E por que suas pernas tremiam sempre que tentava usa-las? Sentia seus ossos, mas eles pareciam ser feitos algas, sem sustentação alguma! Com as mãos fechadas em punho, socou a areia com raiva, respirando com dificuldade.

O sol estava esquentando sua nuca e sua pele começou a ficar pegajosa. Gotículas de água formavam-se em sua testa, clavícula e abaixo dos seios. Estaria derretendo? Que coisa nojenta era aquela? Será que finalmente estava morrendo? Depois de tanta dor e sofrimento? Sentia-se fraca, a boca estava seca e agora soltava água pelos poros. Seu corpo deveria estar rejeitando as pernas.

Os olhos se encheram de lágrimas com a perspectiva. Estava tão perto! Chegou a tocar a felicidade com as pontas dos dedos e ela lhe fugira. Começou a chorar, imaginando a tristeza de seu pai ao descobri-la morta – isso se ele chegasse a descobrir seu paradeiro. Chorou por não ter tido tempo de aproveitar as pernas e a vida de humano que sempre sonhou. Chorou por sentir ter decepcionado a todos e a si mesma em sua busca.

Mas não foram as lágrimas que duplicaram sua visão enquanto resfolegava. E não foi seu desespero que a fez ouvir vozes trazidas pelo vento. Antes que pudesse saber o que acontecia, seu corpo desfaleceu na areia. As pálpebras pesadas caiam sobre os olhos, de modo que tudo o que a jovem viu antes de desmaiar foi uma forma humanoide correndo em sua direção.


Espero que tenham gostado do conto! Estou bastante feliz com o resultado, e espero me aventurar novamente em algo do tipo em breve. Eu o disponibilizei no Nyah Fanfiction também, caso queiram, só clicar AQUI

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