09 agosto 2020

Carta sem endereço

10:24

 S. J. do Rio Preto - 9 de agosto de 2020


Querido Pai,


Como estão as coisas aí em cima? Imagino que movimentadas devido a bagunça que está o mundo. Coisa de louco, não é? Eu nunca imaginaria que tanta coisa pudesse acontecer em um ano. Mas talvez você possa ver as coisas com maior clareza agora, não é?


Você se lembra de quando a gente trocava cartas? Creio que umas das minhas maiores motivações para começar a escrever seja isso. Eu não lembro muito bem do fato em si – tinha 4 anos, fala sério - mas guardo comigo a memória afetiva de receber suas cartas, dos imãs de peixinhos que tinha até pouco tempo, da emoção em enviar algo pro papai. Tenho todas elas guardadas em uma caixa bem fechada em casa.


Guardo comigo também o carinho que era quando voltava de São Paulo. Lembro dos chocolates – sempre que vinha trazia uma barra de toblerone ou aquela caixa dos bombons de conchas e cavalos marinhos.


Lembro do cheiro do incenso. Do violão tocando e da sua voz rouca no quartinho da garagem. Com muito carinho, não me esqueço de quando amarrava uma de suas bandanas na cabeça e escolhia o próximo álbum da nossa coleção para tocar bem alto no som estéreo. Eu dançava com você e achava a maior graça.


Lembro de quando costurou diversas lantejoulas no meu biquini como parte de uma fantasia de carnaval, e de quando sentava para pentear meu cabelo e fazer tranças. Lembro do seu perfume favorito e de como eu adoro o tanto que ele fica impregnado na gente.


Eu guardo comigo todas essas coisas. E foco em todos os momentos alegres que compartilhamos juntos. Dizem que quando as pessoas morrem subitamente elas passam a não ter defeitos; não concordo. Quando as pessoas morrem eles só passam a não ter mais tanto valor assim.


Eu amei você e vou continuar amando. Mesmo que tenhamos tido nossas desavenças. Mesmo que a vida tenha nos afastado por tempo demais – e encontramos nosso caminho de volta talvez muito em cima da hora.


Eu queria poder ter dito todas essas coisas antes. Queria muito. Ao invés, escrevo essa carta, sabendo que irá recebe-la mesmo assim, eu é que não vou receber a resposta.


Essa coisa de conversamos com via de mão única é meio injusta, sabe. Mas tudo bem. Estou me acostumando ainda.


No mais, você sabe: eu estou bem. Estou ficando bem. E vou ficar bem.


Continue acompanhando nossas aventuras da maneira que puder aí de cima.


Nós estaremos rezando por você aqui de baixo.


Te amo do tamanho do infinito.


Sua filhota,


        Maria


18 junho 2020

"Eu Nunca..." é mais do que parece

09:11
Quando vi a chamada da nova série da Netflix, "Eu Nunca...", eu imaginei que seria apenas mais um investimento do canal de streaming em conteúdos para adolescentes cheios de clichê. Você sabe, o grupo nerd de meninas decide que o novo ano escolar será totalmente diferente e acabam em diversas situações embaraçosas. Eu já vi isso inúmeras vezes, e com certeza você também já viu. Ainda sim, dei uma chance a série toda colorida de trinta minutos (sempre precisamos de uma dessas de vez em quando). Admito que vi um episódio e fiquei um pouco com preguiça, Devi, a personagem principal, parecia um pouco demais para mim. Foi só na segunda sentada que a coisa deslanchou numa mistura de sentimentos.

A série é mais profunda do que aparenta por conta de um detalhe importante: o que movimenta Devi do primeiro ao décimo episódio, ocasionando em diversas mancadas com as amigas e com a família, é o luto. De uma maneira até que leve, Mindy Kalling e Lang Fisher, as criadoras da série conseguiram abordar a trajetória de uma adolescente do ensino médio ao perder seu pai de uma maneira inesperada e chocante. Toda sua ansiedade por mudar, em fazer justamente aquilo o que não esperam que ela faça, seus ímpetos e impulsos, Devi está, na verdade, perdida e sem se permitir sentir a perda do pai. Foi algo que me tocou muito em particular, uma vez que julho vai fazer um ano que perdi meu próprio pai - e, veja só, mesmo eu sendo 10 anos mais velha que a personagem, me senti bem próxima a ela.

Apesar desse plano de fundo triste que guia a história, a série não pesa e consegue nos fazer rir sem culpa - como quando ela cai de cara no chão no corredor da escola por não saber usar saltos. Ou os momentos com seu crush master, Paxton, é praticamente vergonha alheia. A série soube equilibrar muito bem, não ficando nem melodramático ou uma comédia basiquinha, trazendo ao invés algo mais realista e inteligente. É uma boa produção com desenvolvimentos de personagens, dando atenção não apenas à Devi, mas também suas amigas e seu inimigo-escolar, Ben. Sem contar a capacidade de abordar as diversas 

Outro ponto tremendamente importante que merece um parágrafo só dele é a diversidade. Devi é hindu e através de sua família podemos observar algumas tradições e cultura, e a dificuldade dela em se ver como hindu tendo nascido e crescido nos E.U.A. Temos personagens judeus, asiáticos, negros, LGBT+, como uma escola e cidade normais cheias de pessoas diferentes. E são personagens com falas, histórias, importância, ao invés de relegados ao fundo. É uma dinâmica diferente e que gostei muito de observar. 

Para concluir, "Eu Nunca..." é uma série para adolescentes com um clichê revigorado, que pegou o que seria mais do mesmo e transformou numa série de conteúdo e positiva para quem for assistir, cheia de temas pertinentes principalmente para os que estão na idade dos personagens. Espero que seja renovada, acredito que há muito mais para ser falado - e no formato que fizeram, seria muito ouvido.

27 maio 2020

O Jardim Secreto - Frances Hodgson Burnett

09:00







Título Original: The Secret Garden
Título Nacional: O Jardim Secreto
Autor(a): Frances Hodgson Burnett
Páginas: 272
Editora: Editora 34

Na minha tenra infância, um dos meus desenhos favoritos era O Jardim Secreto. Eu tinha um VHS que fazia parte da coleção Videoteca da Criança, do jornal Folha de S.Paulo, que eu assistia seguidamente, gostava tanto que eu o guardei comigo por anos mesmo quando os DVDs começaram a tomar seus lugares. Quando cresci um pouco mais conheci o filme de 1993 através da Sessão da Tarde e, claro, meu amor pela história só ficou mais forte (a conta da locadora que o diga). Mas eu nunca havia lido o livro; aliás, por muito tempo não sabia ou ignorei a informação de sua existência. E aí a gente cresce, nossas prioridades mudam e o que antes aquecia nosso coração fica no cantinho meio esquecido.

Com a quarentena e a mudança de rotina - e minha súbita nostalgia pelo enredo - finalmente pude parar de procrastinar e pedir o livro emprestado a uma amiga para conhecer a história original. Meu único arrependimento é não ter feito isso antes.

Publicado em 1911 e considerando a maior obra da autora, o livro conta a história de Mary Lennox, uma criança inglesa muito mal humorada e desagradável que após a morte dos pais passa a morar com o recluso tio em sua mansão sombria. Sem nada para fazer ou com quem brincar, Mary passa seu tempo explorando a propriedade em busca de um jardim há muito escondido. A sinopse é muito simples e qualquer coisa dita a mais… bem, é demais. De qualquer forma, a existência de um jardim secreto a espera para ser descoberto, uma promessa etérea cheia de mistérios, permeou minha mente por anos. A busca por ele sendo tão importante quanto ele próprio, que participa do livro como um personagem silencioso acometendo tantas mudanças entre seus companheiros. É facilmente meu livro favorito do ano e um dos favoritos da vida.

Todas as adaptações que eu assisti foram muito boas, mas o que eu buscava só encontrei nas linhas do livro: as nuances. Mary é uma jovem mimada e séria, que nunca foi de fato uma criança e que por muitas vezes age feito uma velha carrancuda. A mansão e a vida no interior da Inglaterra é tão diferente do que ela está acostumada que, inevitavelmente, causa mudanças em seu humor, eu sua aparência, em seus pensamentos. Acompanhá-la aos poucos se permitindo agir e ser criança, de certa forma pelo menos, foi como se eu estivesse acompanhando sua trajetória bem ao seu lado, invisível.

O livro é infantil, o que não significa que mais velhos não possam aproveitar - e talvez aproveitem até mais, por questões de amadurecimento do olhar sobre a história. A narrativa é extremamente leve e fluída, facilmente lido em alguns poucos dias. Depois de tanto tempo com dificuldades em pegar um livro pra ler, O Jardim Secreto, tal como minha xará no livro, parece ter me devolvido a vontade. De alguma forma, Frances parece ter o dom de nos aquecer o coração com suas palavras e nos envolver no início ao fim. Eu podia praticamente sentir o cheiro da natureza enquanto lia, ou ouvir o vento pelos corredores vazios da mansão. É um jeito característico de escrita que me agradou demais.

Eu tenho apenas duas ressalvas para fazer: uma, a edição do livro carecia maior cuidado. Não foram poucas as vezes que havia palavra digitada errada ou, ainda, que o corretor trocou por outra palavra deixando a frase sem sentido. Duas: o final abrupto. Minha sensação foi que haviam cortado o capítulo e esquecido de publicar o resto. Não que faltasse mais à história, não é isso, mas pareceu corrido, como se tivesse resumido tudo em algumas linhas e ai fica aquela sensação de continuidade. De resto, a edição é menor, mas não chega a ser de bolso, e há ilustrações lindas no decorrer das páginas.

Uma curiosidade é que Frances, a autora, se inspirou em um jardim real para o livro. Ela morou na mansão Great Maytham Hall, onde se dedicou ao seu amor por flores, em especial as rosas. Foi lá que ela encontrou exatamente um jardim “secreto”: todo murado e negligenciado. Ela mesma cuidou dele pelos dez anos em que morou na mansão e foi lá que escreveu algumas de suas obras.

Por fim, eu posso dizer que eu amo esse livro, as adaptações, a história. Eu quero que todos leiam e conheçam um pouco d’o jardim e se apaixonem pelos passarinhos de peito vermelho, pela curiosidade, pela natureza e pela vida, assim como Mary se apaixonou.

12 maio 2020

"Gatinhas e Gatões" e o problema de filmes datados

10:00
John Hughes foi um diretor, produtor e roteirista e é considerado um clássico dos anos 80, e não é por pouca coisa. Seus filmes são conhecidos e exibidos desde que foram lançados, e alguns extremamente conhecidos - vai dizer que nunca cantou Twist and Shout com Ferris Bueller em Curtindo a Vida Adoidado? Ou não teve uma crush pelo elenco de O Clube dos Cinco? Apesar de seu vasto currículo, eu conhecia seus filmes mais por nome que por tê-los de fato assistido, apesar de lembrar de seus filmes na Sessão da Tarde minha memória não vai tão longe para tópicos como "o filme é bom?", "eu gostei?" (e de qualquer forma eu era muito nova para um senso crítico válido).

Em Gatinhas e Gatões temos Sam (interpretada por Molly Ringwald, a atriz queridinha da época e do próprio Hughes), uma jovem que acorda animada para o dia de ser aniversário de dezesseis anos... apenas para se decepcionar uma vez que toda a sua família se esqueceu dele (e dela) mediante o casamento da irmã no dia seguinte. E é claro que o dia só tende a piorar com diversas situações embaraçosas e absurdas seguidas uma da outra. Em 24 horas observamos o núcleo familiar e escolar de Sam, bem como parte de sua transição pela pior fase da vida: a adolescência.

Primeiramente, um dos pontos mais importantes para se lembrar dos filmes do Hughes é que todos são produtos de seu tempo, isto é, são bastante datados. Sendo de 1984, Gatinhas e Gatões não foge à regra: é machista, sexista e cheio de piadas que, para a época, poderiam ser ótimas, mas hoje em dia só conseguiram me fazer caretas de desgosto quando vi. Cheio de esteriótipo, temos a popular maldosa, os nerds desajeitados e até mesmo o estudante de intercâmbio terrivelmente caraterizado como seu país (sério, chegou a doer assistir). O filme inteiro cheira a anos 80 e não é por causa das roupas.

O filme não é ruim, mas também não é exatamente bom. Molly faz jus à sua fama de atriz teen da época convencendo como a irmã do meio que só queria um pouco de atenção para variar, cheia de expectativas para o futuro e esperando que as coisas mudassem quando ela fizesse dezesseis. Por vezes foi cômico comparar aquela época com a nossa - quer dizer, seus avós fumavam na cara de todo mundo numa cozinha minuscula enquanto todos comiam! É basicamente um filme clássico de adolescente no colegial, com seus problemas de jovem e de escola. Esta formula é usada há décadas, apenas adaptada para região e ano. Tã-dã: sucesso garantido.

Mas meu maior e pior problema com o filme é sua cultura de estupro. Há pelo menos dois momentos muito explícitos no filme que eu fiquei horrorizada. Podem falar que "ah, mas era a época", eu realmente não entendo e não aceito como podem escrever essas cenas em meio a filmes voltados para adolescentes - não que fosse aceitável num filme adulto, mas pera lá, filme para jovem? Na época foi lançado como "classificação livre" um filme que os personagens tratam mulheres como objetos sexuais, não as respeitam em situação alguma e um deles ainda diz que poderia violar a namorada de maneiras diferentes e ela não notaria de tão bêbada que estava. AAAAHHHH! Não! Não! Não!

Enfim, é um filme okay. Se cortasse todas as problemáticas, talvez restasse uns trinta minutos de filme, talvez quarenta. Passei raiva, mas torci pela Sam o tempo todo, o que é dizer muito considerando que todos os personagens possui certos problemas de construção (e alguns gravíssimos diga-se de passagem. Ela é constante, age e pensa como adolescente e sua situação me fez esperar que ela fosse feliz em sua vida.

Como a força da raiva é algo poderoso, depois de assistir este filme decidi procurar os outros filmes do John Hughes para assistir e espero trazer minha análise deles em breve aqui para vocês. Eu digo força da raiva não por mal, mas não esperava que Gatinhas e Gatões fosse tão problemático já que sempre ouvi falar muito bem do diretor e roteirista, e não havia visto problematizarem suas obras. Depois deste meu choque, quero ver uns e rever outros com um olhar mais objetivo e crítico. Segurem minha mão, que vou precisar de forças.

Título Original: Sixteen Candles
Título Nacional: Gatinhas e Gatões
Ano: 1984
Direção: John Hughes
Duração: 1h33m
Elenco: Molly Ringwald, Anthony Michael Hall, Michael Schoeffling
Trailer: 

11 maio 2020

A Casa de Vidro - Anna Fagundes Martino

09:30







Literatura Nacional
Título: A Casa de Vidro (As Estações #1)
Autor(a): Anna Fagundes Martino
Páginas: 87 (e-book kindle)
Editora: Dame Blanche

A Casa de Vidro é uma novela (maior que um conto, mas menor que um romance) que se passa entre o fim do século 19 e início do século 20, alternando as passagens entre o passado e o presente. A história circunda Eleanor, uma jovem abastada cujo pai construiu na propriedade uma enorme estufa, tendo como seu jardineiro o misterioso Sebastian. O rapaz não é simplesmente habilidoso com as plantas, mas parece chegar a ser mágico a maneira como a natureza responde a ele.

Com uma narrativa fluída e fácil, Anna nos envolve rapidamente na trama misteriosa e mágica, acompanhando uma Eleanor curiosa e fascinada com o novo empregado que parece não ser dessas terras e logo parecemos ela mesma: cheios de perguntas e com poucas resposta. De onde Sebastian vem? Porque ele parece tão inalcançável em seu silêncio? Como é que flores primaveris brotam em pleno inverno de um dia para outro? Mas, ao contrário da jovem, não temos quase nenhuma explicação, e eu ainda não consigo decidir se isso é bom ou ruim.

A minha sensação era de que eu estava lendo algo parte de um mundo maior, como se fosse um conto à partir de um romance. Entretanto, como não é um caso, parecia que faltava informação para deixar o livro mais concreto, sabe? Faltou tempo para desenvolver melhor a narrativa e personagens; eu vi muito potencial para algo mais que não foi tão aproveitado. Vou utilizar o termo "morno", porque eu gostei muito do que li no decorrer das páginas, não está mal construído, pelo contrário, consegui ver que foi bem pensado. Mas ainda não chegou naquele ponto certo, na "temperatura" certa onde está tudo equilibrado o suficiente para que meu coração seja arrebatado - faltou pouquinho, viu.

Até certo ponto, por se tratar de uma narrativa fantástica, não dar todas as respostas é algo positivo, pois adiciona um ar mais mágico e nos deixa mais curiosos. Mas, da minha parte, tinha perguntas demais do começo ao fim que não consegui responder, acabou atrapalhando mais que ajudando. Não sei se foi intencional da autora, como se ela quisesse testar a água com noveletas antes de lançar um livro mais robusto sobre este mundo (Oi! Quero!), mas apesar de ter adorado a leitura e de ter adorado conhecer Eleanor e Sebastian, no final a sensação de faltar algo me foi um tanto incômoda. Só sei que eu quero mais, de preferência que venha em um romance cheio de páginas, ia amar conhecer e compreender o que foi criado!

Descobri depois que A Casa de Vidro é parte de uma trilogia, sendo o primeiro livro. Cada um, pelo que pude observar das sinopses, é um livro independente e individual, apesar de partilharem o mesmo universo estabelecido no primeiro. Todos tem essa capa ligada à flores Estou ansiosa para ler os dois próximos (já estão disponível na Amazon!) e descobrir mais sobre esse vínculo interessante com a natureza. Em segunda nota, só queria deixar registrado que o que me atraiu de cara foi primeiro a capa linda e em seguida o título, a vontade é ter a trilogia fisicamente enfeitando minha estante.